QUO VADIS, BRASÍLIA?
Desde que a Capital da República conquistou o direito – legítimo e legal – de ter sua representatividade política, com a eleição de deputados distritais, federais, senadores e governador, vem oferecendo, de tempos em tempos, os piores exemplos de prática política e falta de ética na condução do interesse público.
O que estamos vendo hoje é fruto de toda uma cultura que se instalou na política local – e é caudatária de um sistema anacrônico e apodrecido de se fazer política no Brasil inteiro – e que está colocando a cidade não apenas no noticiário, mas na agenda policial.
As denúncias de corrupção, a reboque do mensalão do DEM-DF, são de corar a um monge de pedra e colocam na mesma arca de noé da imoralidade o governador (detido) José Roberto Arruda, seu vice Paulo Octávio, deputados distritais, secretários e outros membros do GDF, desmoralizam o sonho de Juscelino e de tantos candangos que ergueram uma cidade em nome do desenvolvimento, da modernidade e da ruptura com um país arcaico.
Ao completar cinquenta anos no próximo dia 21 de abril, Brasília não tem nada a comemorar depois dessa saraivada de crimes flagrados e exibidos publicamente, cujo desfecho, espera-se, seja a punição dos culpados e a desratização do executivo e do legislativo da capital, rompendo-se com um ciclo/círculo vicioso/viciado que há muito vem estereotipando uma cidade que já foi chamada por André Malraux de “capital da esperança”, mas que, por culpa e obra de políticos inescrupulosos e descompromissados com o interesse público e a verdade, está entrando para as piores estatísticas do guiness book da antiética como a campeã do propinoduto.
Brasília nasceu sob a égide da renovação, deflagrando durante sua construção a marcha para o oeste, que sacudia um país hibernado e de costas para si mesmo e se interiorizava, levando o desenvolvimento e a modernização para os mais fundos rincões, a partir dos eixos que JK traçou em seu plano de metas, como a Belém-Brasília, a BR-040, as usinas hidrelétricas de Furnas e Três Marias e implantação da indústria automobilística.
A cidade que transferiu o centro do poder do Rio, modificando o árido cenário do Planalto Central, hoje convive com outro deserto, o moral. As patéticas demonstrações de escárnio, deboche, cinismo e pouca-vergonha que esses “homens e mulheres públicos” exibiram frente às câmeras, é uma punhalada na consciência de cada (eleitor) brasileiro. E as lágrimas crocodilescas dos que insistem em pedir perdão e negar o óbvio é mais um atestado do aperfeiçoamento da demagogia e refletem o nível de banalização e de pulverização dos princípios e deturpação dos valores que devem nortear a conduta de servidores públicos eleitos pelo povo para servir somente a ele e não aos interesses próprios e de grupos.
Exemplos como esses acabam por desmoralizar a cidade e seu povo, que não podem carregar o estigma pelos fracassos da classe política e os desmandos e as virulentas e corrosivas mazelas de tantas décadas. A baixaria que tomou conta da Capital da República, trazendo rugas precoces a uma cidade ainda tão nova, mas afetada pelas velhacarias do poder, nivelam a vida ao esgoto, à latrina e a uma overdose patética de imoralidade e desrespeito à própria condição humana. Brasília não merece ser transformada num detrito federal.
(*) Ronaldo Cagiano, escritor mineiro de Cataguases, morou 28 anos em Brasília e atualmente vive em São Paulo.
Fonte: contraovento
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